No arquivo interno havia um aspirador de áudio, com pronomes ela/dela. A sonora não era bem clara, então, na dúvida, a aparelhagem saía captando todo e qualquer ruído. Entendia que era por ela e para ela qualquer burburinho. Frases claras? "É sobre mim!" ou "É para mim!" Assim entendia o sistema da iludida cibernética. Os robores não evoluíram tanto, é o que aparenta. O desgaste de água na cidade tem causado intemperanças diversas. Minha vizinha, Baleia Azul (sério, não é o apelido dela), já entrou na causa e está importunando o Juiz Local para, arbitrariamente, mudar o rumo daquela pequena civilização da cidade de Umbigo do Mundo.
Ela pensou que iria me pegar de surpresa. Onze e meia, a hora do recreio na vila dos Maus Caracteres Sem Escrúpulos.
— Bazinga! Peitos, bundas, genitália e fluidos corporais!
Ela, e eles, tinham essa artimanha de explorar as partes mais baixas para "pegar" alguns desavisados.
— De novo com essa monomania? Não posso esperar para relatar sobre essa baixaria para Aquele Que Tem O Poder da Caneta. Quem avisa, amigo é.
Um. Pequeno. E. Paciente. Alvoroço. Se. Estabeleceu.
A coragem que eles demonstravam era, na verdade, pavor. O fim estava próximo. Primeiro caiu o Palhaço-Mor do circo; em seguida, cairá um bobo de cada vez. Dos mais altivos e escandalosos até os mais sonsos e fala-baixinhos.
Sim, este lugar existe: cada pessoa participante da organização muda de personalidade assim que se retira do recinto, saindo "desconfiados". Eu, particularmente, não tenho negócio com eles, mas fico muito curioso a respeito da singularidade conhecida como "ꙮ".
Se histrionismo fosse uma bola, eu a chutei com aquela frase. Pra ser honesto, a chefia da cúpula já tinha conhecimento do caos sem-vergonhístico e só não cortava o mal pela raiz porque havia um resto de petulância clientelista e rabo preso com a pseudo-oligarquia municipal. Mas o prazo estava se encerrando. E eu fui circulando o "ꙮ". O que piugas seria isso?
Um caractere diferente, pra ser honesto. Perguntei às testemunhas se elas aceitariam apresentar o caso comigo desde já, mas elas hesitaram um pouco: os ângulos e frames requereriam provas. Engraçado isso. Como irão reagir? Eu tenho artefatos e pastas para dar e vender, documentos e dados sem fim, uma penca de gigas. Tanta coisa que nem o diabo consegueria defender os vilanescos arruaceiros.
Apostaram no joguinho do boomerangue, sem entender bem a bugiganga. Jogadores caros para a instituição, de fato. Outro dia a influencer do grupo caiu de um desfiladeiro enquanto fazia uma selfie que mostrava a sua doação de caridade para crianças órfãs de guerra. "Justiça seja feita!" era o que, provavelmente, o viciado médio em escrollar vídeos de nicho, conteúdos gostosos do bel-prazer, faria diante de uma mesa de jurados que sentenciaram de morte uma investigadora de forense digital.
A vila cabia no Umbigo. Agora, alecrim dourado, tu me respondes: quem conversa bosta‽ Diante do exposto cirílico, eu olho para o desmantelo do "ꙮ" e tento fotografar entre suas arestas. Vejo tentativas de puladas de cerca, vejo vestígios de romance e curiosidades mórbidas. Pessoas perniciosas tentando invadir privacidades alheias. Deus está vendo. Baleia Azul tomará partido ou olhará com expressão arregalada para mim, sob efeito cacho de frutas do guaraná, e "ꙮ"‽
Olhos de serafins para vigiar todas as coisas, sem cessar, adorando o sublime que virá da catarse ao ver o ímpio colher o que plantou. Porque a molesta localista se alucinou na fascinação da aparente vantagem. Dinheiro, carros, diplomas, a maquiagem artificial-natural da noite, "amigos" movidos por interesse ou por conveniência.
Olhei "ꙮ" novamente e percebi uma figura no mínimo "burlesca". Um patife que fazia "academia pra pegar mulher". Alguém traduz, por favor. Não há taxonomia aplicável no mundo semântico de alto nível. Delgado betinha, como o chamariam os duendes adolescentes.
Tão logo continuei espreitandꙮ as margens da manhã, aceitei um convite para "apreciar" o som de falsos cantores, imitadores de João Gomes e Tarcísio do Acordeon. Eles precisam saber que eu detesto eles. Me chame de Bom Gosto. Localmente, eu só preciso de uma palavra. Francamente? Meia palavra basta. Um gesto talvez‽ Vou testar, isso é ciência! Um sorrisinho que revela mais do que deve.
Para concretizar um principado que suplante "protegés" da imunidade ilusória. Baleia, talvez tenha razão, é o petricor que vence os protecionismos políticos. Os que corroem o ambiente não sairão impunes, ainda que tentem camuflar a malignidade com catolicismo.
Cadentes e prestes a aterrissarem no vazio, o Zé povinho da vila M.C.S.E. elegeu um Casmurro depressivo para pronunciar um pedido de desculpas.
— Excelentíssimo Senhor Filósofo, vimos, encarecidamente, pedir, pelo amor da Virgem Maria, santíssima Aparecida, que, por favor, nos perdoe pelos excessos materiais, pela soberba das posses, pela papagaiada em público, pela busca obsessiva pelos primeiros assentos.
— Ssssssh. Sssshh. Fala baixo. Fala baixo. Ele assinou. Ele canetou. Já era, amiguinho.
Foram parar no "ꙮ" da rua. Ah! No gélido fundo, onde não há mais apelação, nem razões estranhas nos bastidores. Desabou a vila, cristal quebrado. Se não fosse a Baleia... O aspirador justificaria a sua existência; suas recordações viraram apenas cacofonia.