Ela é tudo o que ela pensa que é.
Eu não quero ouvir contraopiniões. Um monte de desconhecidos juntos no salão das discussões políticas. O destino daquela nação seria decidido ali, para os
próximos quadriênios. Uau, quanto excesso de autoimportância e opulência
federal! Uh, vou tirar para dançar alguém, de preferência, de ego inflamado.
— Eu tirei a sorte grande no
momento que apertei a sua mão.
— Quem lhe disse isso, a cigana? —
A flamenga, ou flamenca, sei lá.
— Fala sério, tu só quer ser o que
não é.
— Adoro os nomes de comidas
brasileiras, escondidinho, vaca atolada, vergonha na cara. — Quer bancar o
engraçadinho, agora, né? — Fez cara de esnobe.
— Na verdade, na verdade, irmã. Eu
sustento uma palhaça. No aromático dizer desse substantivo.
— O quê? Que é que tu tens, homi?
— Uma ilustre pessoa me enviou um
reply ontem. No mesmo dia em que recebi a devolutiva, via epístola, de uma
orácula. Ordinária.
— É a nova loira do Tchan? — Não,
não. Mas é linda, deixei ela entrar.
— Esse canário aí é enganoso,
cuidado, viu? — Tá com ciúmes? Por acaso não se pode mais socializar nesse
mundo de meu Deus? Você quer se pôr no meio dos trilhos? Esperneando assim,
fazendo escândalos. São muitos “hahahas, hihihis, hehehes”, a coisa está óbvia
demais. — Ho! Ho! Ho! Então, estúpido! — De súbito, a usurpadora de piadas tentou
me apunhalar pelas costas, cansou de só falar, mas...
Tchonk! Plank! Drusssh. Uma barca,
do tamanho certo, caiu entre nós. Que estranheza, a sensação minha na hora
exata é que eu estava esperando algo assim acontecer. O veículo aquático,
aparentemente, foi construído com as manhas do pau a pique, quase um barquinho
de taipa. Que loucura, só de reconstituir aquela cena, me dá vontade de rebolar
as cadeiras.
Temorosa, minha detratora de
pelúcia se afastou. Suas anjas da guarda foram a consolar, filosofando miudezas
diversas sobre a vida e o além. Tia Zinha abriu a porta intangível, na minha
retaguarda, pausa; e me complicou: “aaaaaah nãããããooo me desculpa por interromper o seu namoro,
não queríamos ser desmancha-prazeres.”
“Oh, não se estresse, titia, isso
aqui era só um badulaque casual, nada demais; por obséquio, poderias elucidar o
que danado está havendo ali em cima?”
“Oooun, que fofinho. Não, não é
nada demais. Miguel e a armada arcangelical estão ensaiando o último ato do juízo
final, e o negócio foi intenso hoje, shushushushushushushushushus, daí sobrou
um pouco para vocês terrestres. Me desculpe pelo inconveniente, sério mesmo.
Olha, toda essa madeira e trecos são só uma lágrima de um dos querubins que se
entalou com um alarido de glória, após ouvir o incenso das orações dos
santos. Mas, enfim. Ninguém é de ferro, né? Ai, ai. Rrum, rum.”
Recebendo isso, daqueles lábios
dourados... Fiquei zonzo. Nos despimos (despedimos) em seguida, com um abraço e um beijinho.
Tchium, clarão e desaparecimento instantâneo, quase um elevador celestial
puxando a potranca. “Tchau.” “Tchaaau.” “Até amanhã.”