terça-feira, 25 de agosto de 2026

Compromisso

Ela é tudo o que ela pensa que é. Eu não quero ouvir contraopiniões. Um monte de desconhecidos juntos no salão das discussões políticas. O destino daquela nação seria decidido ali, para os próximos quadriênios. Uau, quanto excesso de autoimportância e opulência federal! Uh, vou tirar para dançar alguém, de preferência, de ego inflamado.

— Eu tirei a sorte grande no momento que apertei a sua mão.

— Quem lhe disse isso, a cigana? — A flamenga, ou flamenca, sei lá.

— Fala sério, tu só quer ser o que não é.

— Adoro os nomes de comidas brasileiras, escondidinho, vaca atolada, vergonha na cara. — Quer bancar o engraçadinho, agora, né? — Fez cara de esnobe.

— Na verdade, na verdade, irmã. Eu sustento uma palhaça. No aromático dizer desse substantivo.

— O quê? Que é que tu tens, homi?

— Uma ilustre pessoa me enviou um reply ontem. No mesmo dia em que recebi a devolutiva, via epístola, de uma orácula. Ordinária.

— É a nova loira do Tchan? — Não, não. Mas é linda, deixei ela entrar.

— Esse canário aí é enganoso, cuidado, viu? — Tá com ciúmes? Por acaso não se pode mais socializar nesse mundo de meu Deus? Você quer se pôr no meio dos trilhos? Esperneando assim, fazendo escândalos. São muitos “hahahas, hihihis, hehehes”, a coisa está óbvia demais. — Ho! Ho! Ho! Então, estúpido! — De súbito, a usurpadora de piadas tentou me apunhalar pelas costas, cansou de só falar, mas...

Tchonk! Plank! Drusssh. Uma barca, do tamanho certo, caiu entre nós. Que estranheza, a sensação minha na hora exata é que eu estava esperando algo assim acontecer. O veículo aquático, aparentemente, foi construído com as manhas do pau a pique, quase um barquinho de taipa. Que loucura, só de reconstituir aquela cena, me dá vontade de rebolar as cadeiras.

Temorosa, minha detratora de pelúcia se afastou. Suas anjas da guarda foram a consolar, filosofando miudezas diversas sobre a vida e o além. Tia Zinha abriu a porta intangível, na minha retaguarda, pausa; e me complicou: “aaaaaah nãããããooo me desculpa por interromper o seu namoro, não queríamos ser desmancha-prazeres.”

“Oh, não se estresse, titia, isso aqui era só um badulaque casual, nada demais; por obséquio, poderias elucidar o que danado está havendo ali em cima?”

“Oooun, que fofinho. Não, não é nada demais. Miguel e a armada arcangelical estão ensaiando o último ato do juízo final, e o negócio foi intenso hoje, shushushushushushushushushus, daí sobrou um pouco para vocês terrestres. Me desculpe pelo inconveniente, sério mesmo. Olha, toda essa madeira e trecos são só uma lágrima de um dos querubins que se entalou com um alarido de glória, após ouvir o incenso das orações dos santos. Mas, enfim. Ninguém é de ferro, né? Ai, ai. Rrum, rum.”

Recebendo isso, daqueles lábios dourados... Fiquei zonzo. Nos despimos (despedimos) em seguida, com um abraço e um beijinho. Tchium, clarão e desaparecimento instantâneo, quase um elevador celestial puxando a potranca. “Tchau.” “Tchaaau.” “Até amanhã.”